Contra o “juridiquês” dispensável

Está no Wikipedia (ah a modernidade… bons os tempos em que pesquisávamos no Aurélio…):

“O termo juridiquês é um neologismo em voga no Brasil para designar o uso desnecessário e excessivo do jargão jurídico e de termos técnicos de Direito. De modo geral, a opinião do senso comum é de que o “juridiquês”, a não ser quando empregado por juristas ou em contextos apropriados (como em julgamentos ou no processo legislativo), denota floreio excessivo da língua e subterfúgio desnecessário a termos pouco conhecidos do grande público.”

Conversar com advogados (sobre qualquer coisa, diga-se de passagem), juízes, ou pior, estudantes de Direito, é um exercício à paciência. Expressões em latim, palavras rebuscadas, aquele comportamento típico da pessoa que se considera a “última bolacha do pacote”, tudo isso é encontrado hoje até mesmo nos bixos das faculdade de direito espalhadas pelo país. É a perpetuação de uma tradição estúpida de mostrar saber falar melhor e mais difícil do que as outras pessoas.

Outro hábito desnecessário é aquele de querer explicar todos os acontecimentos do universo com a letra da lei. Se o cachorro do seu vizinho faz as necessidades no seu portão, o seu amigo advogado vai dizer “Você deveria processar ele por danos materiais; é um desgaste estético e  valorativo da sua propriedade.” Porque, convenhamos, é muito mais difícil conversar com o seu vizinho do que contratar um advogado.

O tal juridiquês é uma arma poderosa contra o povo. Usados fora de seu lugar original (ou seja, dentro dos processos, salas de aulas e fóruns), ele impede a compreensão do que se diz, aumentando a ignorância da população em relação a seus direitos. Quer ver só? Então tente entender esta

“Adeamus ad montem, fodere putae, cum porribus nostrus”

Acreditem, não é nada disso que vocês estão pensando, mas apenas “vamos à montanha, plantar batatas, com nossas enxadas”. Um perfeito exemplo de que a linguagem rebuscada demais tende a não apenas obscurecer, mas também cria outros sentidos para as coisas.

Sim, nós (porque também faço parte desses fluentes em juridiquês) sabemos como funcionam as regras do jogo, mas nem por isso devemos deixar o resto das pessoas no escuro. Estudar Direito é trazer uma luz à sociedade, a luz da compreensão e interpretação das leis que regem nosso país, para que um dia todo possam entender por si mesmos.

Segue abaixo um link da campanha pela simplificação da linguagem jurídica da Associação dos Magistrados Brasileiros, e um artigo sobre o infame dialeto.

AMB – Associação dos Advogados Brasileiros

Juridiquês – o estranho dialeto jurídico 

2 respostas para Contra o “juridiquês” dispensável

  1. Brilhante apontamento meu estimadíssimo colega,

    De fato a atual realidade jurídica dotada de seus dialetos pitorescos e com os quais diariamente vivenciamos e defrontamos.

    No seio de vossa exposição, digníssimo amigo, vossa senhoria debate com imensurável maestria e magnitude a política tendenciosa de nossa sociedade jurídica, a qual fazemos parte e honramos.

    Confesso, inclusive, ímpeto expositor, que enquadro-me em algumas situações por vós discutidas e que também, data venia, é no mínimo fática e clara e absolutamente pertinente a razão de uma necessária reforma gramático-jurídica, sem qualquer ofensa a nosso saudousíssimo professor e mestre Pontes de Miranda.

    Por fim, gostaria novamente de agradecer ao estimado autor pelo brilhantísmo de sua exposição, por todo o ja exposto.

    Meus calorosos votos de estima e protestos de sincera consideração.

  2. Imagino como deve ser uma colação de grau de estudantes de direito!

    Realmente pensei que estava escrito outra coisa na frase em latim!

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